(para verem algumas fotos cliquem aqui)Vou transcrever as notas que escrevi durante a viagem…é muita informação e quero preserva-la por escrito, para minha memória futura. Partilho convosco, para quem tenha a paciência de ler aquela que foi uma Lifetime Experience sem dúvida. O maior desafio a que já me propus na vida. Accomplished…
25/10 – O Voo
A expectativa é grande. A promessa de uma viagem única e inesquecível está prestes a começar…
Estou a poucas horas de aterrar em Lima, ao meu lado está a Nicole, uma Sra. francesa que já andou por meio mundo e que com a a idade de ser minha mãe, vai agora aventurar-se sozinha pelo Peru, com um guia e sem trecking, é certo, mas mesmo assim uma Sra. de coragem. :)
Com ela dividi o táxi até ao centro e tive a minha 1ª aventura pelas estradas e condução ultra perigosa dos peruanos…to get use to.
Fiquei hospedada no hotel mais carismárico de Lima, o Grand Bolívar, antigo hotel das estrelas e figuras publias, palco dos discursos políticos e de muito glamour. Está velho e com uma grande necessidade de renovação dos quartos, mas continua grandioso.
26/10 – LIMA
De manhã: Passeei pelo centro de Lima. Plaza de las Armas, Igrejas e catedrais, muitos edifícios coloniais, onde imaginei as antigas damas espanholas e seus capitães a passear no seu tempo… Exposição de Cota Carvalho e exposição do Banco Nacional sobre todas as culturas passadas (Chavín, Vicus, Moche, Nasca, Lambayque/ Chimú, Chancay e Inca), incluindo uma exposição de Hugo Cohen com peças de Ouro Incas.
Depois do render da guarda, nada pontual ou sério como o britânico, apanhei um táxi para Miraflores, a caminho da verdadeira aventura que me esperava…
Conheci o grupo : 2 belgas (o único casal no grupo) de 28 e 30 anos – Alice & Vincent; 1 Irlandesa a viver em Melbourne, de 27 anos – Caroline; Uma Australiana a viver em NYC – 46 anos – Karen e um australiano de 47, o Ken, a viver mesmo em Brisbane, na AU. Os “Aussies” do grupo, como eles mesmo se chamavam!
À parte do casal, ninguém se conhecia e estávamos todos a viajar sozinhos.
O grupo pareceu-me logo genial, como se viria a constatar mais tarde…
O Guia em Lima: Sebastian, um porreiro, gay até à ultima, super fashion, que estava numa de curtir tranquilamente pelas ruas da city.
De tarde: 1ª experiência de Bus…passeamos pelo centro de Lima e voltamos para o atarefado e muito turístico bairro de Miraflores para jantarmos. Muito bom, aliás, como toda a comida no Peru, é magnífica…Ceviche, Tacu-Tacu e muito Pisco Sour depois lá fomos dormir pois a wake-up call era às 03h00 da matina!
27/10 – Cusco – antiga Capital Inca
05h45 lá apanhámos o voo p Cusco, a 3200 metros de altitude, foi o 1º contacto com a altitude sickness…uma sensação estranha e difícil de aguentar.
No avião deram-nos logo um chazinho de Coca para aliviar a tensão e comprei um saquinho de folhas logo à chegada…desde então não parámos de beber, uns 7 ou 8 por dia…mas mascar não adorei pois as folhas ficam coladas na boca. De qualquer forma, a folha de coca não altera nada, é como o chá verde, quanto muito ajuda a ter menos pressão no corpo e na cabeça…
Hostal Inca Dream – excelente, mt limpo, muito caseiro, toda a gente ultra simpática e atenciosa, como todo o povo que conheci, verdade seja dita.(Mas ali senti-me em casa!)
Guia em Cusco e posteriormente no Vale Sagrado: Augusto – excelente guia, mt dedicado à cultura Inca e pouco dado a espanholadas, como é evidente…foi 5*.
Passeámos por S. Blas, que é bairro dos artesãos e artistas, tivemos uma “aula” sobre a Coca, enqto bebíamos mais chá e provávamos uns chocolates e bolachas divinais tb eles de coca…e uma aula sobre a importância dos números para os Incas. Mt giro.
De tarde deixámos o Augusto e organizei uma “excursão” do grupo a Sqsaywaman (ou “sexy-woman” como nós lhe chamávamos, pois lê-se mesmo assim) e a Q’enqo. Ruínas Incas em óptimo estado de conservação e palco de rituais e sacrifícios antigos.
De noite jantámos por pouco mais de 1€ cada um e fomos dormir cedo para partirmos de madrugada para o Valle Sagrado.
28/10 – PISAC/ URUBAMBA / OLLAYTAYTAMBO
Wake-up call: 06h45 da matina, um luxo face aos restantes dias, anteriores e posteriores.
- Bus para Pisac – a estação dos autocarros é exactamente o que esperamos, um espaço de terra batida com enormes filas à espera de correr p dentro do bus para não ir no telhado…
- Combi privado para irmos visitar o Centro de Têxteis de Cusco, na montanha, de terra batida e ao ar livre, onde a comunidade se junta para tecer a lã e dar forma aos inúmeros acessórios de Alpaca e ovelha..
- regresso a Pisac e Almoço no mercado tradicional.
- Bus para Urubamba e combi privado de lá para Ollaytaytambo – cidade Inca mt bem preservada – tivemos a sorte de apanhar a festa da aldeia, uma animação!
Visita às muralhas incas e jantar no Hearts Café. De noite ainda dei um passeio com o Jeff pela aldeia para ver melhor a terrinha.

29/10 – 1º dia de trecking – Huaran / Cancha Cancha / Accopata
Começámos por comprar prendas para as crianças e walking sticks em Ollaytatytambo (quantas vezes pensei depois em como não teria conseguido caminhar os 3 dias sem eles, benditos os meus amiguinhos de endurance! ). De combi privado da Lhama Path lá fomos para Huaran.

Equipa:
1 cozinheiro (aliás, um verdadeiro chef, um às no tacho, uma maravilha…Martín) e 2 ajudantes + 2 meninos para levarem as Lamas e 2 guias – O Hubert – guia principal e excelente pessoa, e o Elvis – o meu guia privado - como eu lhe chamava – o miúdo estava a fazer uma espécie de estágio para a faculdade de Guias e teve de me aturar 3 dias a passo de “tortuga”, lol.
Uma dúzia de Lamas para carregarem os Duffle Bags com as nossas coisas básicas e 2 cavalos para carregarem a comida e acessórios.
Começámos o trecking em Fundo Huaran, a 2950 mts e caminhámos por 4 horas até Cancha Cancha, onde tínhamos uma tenda montada para almoçar junto a um riacho. Logo de início, ao fim de alguns metros, começámos a subir e fiquei logo sem ar, um aperto no peito fortíssimo e um peso no corpo que não aguentava, comecei logo a andar tipo caracol pois não conseguia mesmo caminhar nem inspirar fundo. Sol, calor, frio, chuva, tivemos de tudo.
Depois do almoço senti-me melhor e já respirava o suficiente para acompanhar o grupo. A ultima hora de caminhada (a 8ª do dia…) foi debaixo de chuva intensa, até que alcançámos o acampamento molhados até aos ossos, a 4.175 metros. Sítio lindo, chazinho e lanche à nossa espera… foi um reconforto para o corpo e alma.
Conhecemos os dotes do nosso cozinheiro e logo a dormir pois tínhamos de levantar as 05h00 da matina para começar o 2º dia. (quase não dormi com tanto frio).
30/10 – 2º dia de trecking – Pachacutec / Quisuarani / Willquikasa / Cuncani
Atrasámo-nos um bocadinho com os preparativos e às 07h00 da manhã lá arrancámos montanha acima, em direcção ao ponto mais lato da jornada…Pachacutec a 4.850 metros, o ponto mais alto que alguma vez estive na vida. A subida foi muito dura, muito inclinada e com trilhos muito estreitos, a cair para vazios intermináveis.
Chegar lá a cima é absolutamente deslumbrante. De inicio mal consegui falar, com o cansaço e a falta de ar…mas depois de beber um chá de coca e umas pipocas acabadas de fazer lá mesmo no topo, pude apreciar a vista fabulosa, ao nível dos picos cheios de neve das montanhas à volta. Com uma lagoa lá mesmo em baixo, verdinha.

Arrancámos desta vez em downhil :):):) …como eu estava feliz nesse momento!!! Descer para mim era um sonho, conseguia finalmente respirar e nem o granizo que caiu incomodou.
A vista era espectacular e descemos a pique durante umas 3 horas…até chegarmos quase ao local do almoço, Quisuarani (no máximo meia dúzia de casinhas perdidas na montanha com uma escolinha primária). A 3.850. A chegar lá a abaixo comecei a sentir fadiga total e tive de encostar à boxe uns minutos, passei mal e só melhorei depois de vomitar e de cheirar um líquido qualquer que o Elvis me deu. Fomos 3 a sofrer do mesmo, o Ken e Vincent ainda passaram pior! A sorte é que estava sol e calor por essa altura e dava para descansar nas bermas do rio que por ali passava, formando grandes cataratas em alguns pontos.
O almoço já foi debaixo de chuva intensa e muito cansaço…estávamos à quase 6horas a andar…e ainda nos restavam mais 5h30 pela frente, desta vez, com uma grande e inclinada subida de pedras e muita lama, quase sem trilhos visíveis, apenas precipícios…
Assim foi o início da tarde….foi a parte mais difícil de todas e pensei várias vezes que aquilo era uma inconsciência e que eu devia ser doida varrida de me ter metido numa viagem de grau 4 em 5 de exigência física…
No topo de Willquikasa (4.500 mts) senti-me na border line, no meu limite. Ao mesmo tempo senti a alegria de perceber que o tinha superado! Inexplicável.
Do outro lado aguardávamos uma das mais bonitas partes do percurso, cheio de lagoas verdes e chinchilas a correrem pelo meio…aceleramos o passo pois iria ficar noite daí a 2horas e estávamos a quase 3h do suposto acampamento.
A correr montanhas abaixo por horas, começou novamente a chover e estávamos exaustos.
Magoei seriamente o meu joelho tal era a inclinação da montanha e a rapidez com que íamos por ali abaixo, mas mesmo assim tivemos de fazer cerca de 45 minutos de noite.
Chegámos a Cunkani, uma aldeola ligeiramente maior que a anterior, a 3.800 mts. Uma escola com 2 salinhas e o nosso chef e ajudantes a cozinhar lá dentro…estranho era, as lamas e as tendas não estavam por ali, e foi quando percebemos que o ruído que havíamos ouvido umas horas antes na montanha tinha sido de uma avalanche, ocorrida logo depois de termos passado uma montanha e que impediu as lamas e nossos sacos de passar.
Estava no limite da exaustão. 11h30 de caminhada num dia, com altitudes quase sempre acima dos 4.000 metros…voltei a sentir a quebra de tensão. O Ken não aguentou e deitou-se no chão da escola, imundo, e eu, passado uns instantes lá estava também, congelada de frio de cansaço. Os peruanos aqueceram-me umas garrafas e colocaram-me umas mantas em cima para aquecer o corpo.
Cheiravam mt mal e percebi mais tarde porquê…não tendo as nossas coisas, a única forma de nos manterem quentes era utilizar as mantas que serviam de selas aos cavalos, suados da sua caminhada. Ah pois é… é isso mesmo. E eu nem tive forças para pensar nisso, felizmente.
O Homem é um animal de hábitos e ao fim de uns dias na montanha eu já estava sem quaisquer frescuras!
O Hubert mandou 2 homens a meio da noite e da chuva intensa procurar as Lamas e os meninos que as acompanhavam pois não sabíamos se estavam bem, e fizeram todo o caminho para trás à procura!
Na salinha ao lado puseram todas as mantas disponíveis e juntamo-nos os 7 para dormir no chão da escola. Claro que não dormi mais que um par de horas, mas de manhã já estava a sentir-me melhor.
31/10 – 3º dia de trecking – Lares / Ollaytaytambo / Aguas Calientes
O Martín surpreendeu-nos a todos e, quando nos sentámos para tomar o pequeno-almoço, ele, como que por milagre, tinha feito um bolo para nós!!!!!
Recomeçámos a marcha e desta vez, uma “papaíta” / Peace of cake…ou uma canja se fosse por cá
Finalmente o caminho era suave, com casinhas pelo meio, sem pressas. Encontrámos imensas crianças e a felicidade de ¼ de laranja deixa-nos sem palavras. O povo peruano é muito bom, gentil, naturalmente amável, e na sua pobreza material não deixa de ser rico em espírito.
Ao fim de 3 horas chegámos ao nosso destino: as termas naturais de Lares!
Senti-me como se estivesse no SPA do Ritz… agua quente, banho, piscinas a escaldar e…para nossa surpresa, o Cassiano, um dos homens enviados pelo Hubert na noite passada, tinha caminhado toda a noite e toda a manhã com os nossos 7 sacos às costas e lá estava ele, com a nossa roupa limpa!
Nas piscinas conheci o Tomás, um português do Porto, fotógrafo, que andava à 1 ano pelo Peru e que ficou pasmado de me ver ali pois era a primeira portuguesa que conhecia desde que estava na América do Sul. Claro que o Mundo é um T0 e logo percebemos que tínhamos conhecidos em comum. Ele tinha ido pela Geotur para o Peru e era grande amigo de um colega meu da Foz. Incrível, ou talvez não: ainda não percebi a história das coincidências, se as há ou não…
Em Lares já tínhamos a combi da Lhama Path para nos levar de regresso a Ollaytaytambo, 3h30 de caminho por uma estrada que serpenteava pelas montanhas, estreita e toa feita em contra-mão pelo nosso motorista. Fechei os olhos, se não tinha morrido nas montanhas não seria ali, mas o melhor mesmo era não ver!
Chegámos a Ollaytaytambo e fomos beber um Pisco Sour antes de jantar. Fiquei logo animada!!
Jantamos e conhecemos o Kurk, um Neo-zelandês a dar a volta ao Mundo, que a partir dali ficou connosco.
Depois de jantar apanhamos um Tuc-tuc para a estação pois chovia a potes e apanhamos um comboio para Aguas Calientes, o sopé do Machu Picchu.
A cama quente e macia que nos esperava foi uma bênção e dormi das 23h30 até às 04h00 como um bebé.
01/11 – Machu Picchu

05h00 da manhã já estávamos a tomar o pequeno-almoço.
05h30 na fila do bus que nos levaria, loucamente diga-se, até à esperada civilização perdida dos Incas.
É deslumbrante. Amei. Um sítio que tem mesmo uma magia no ar, um misticismo muito forte, que ate para quem é tão pragmática como eu, surpreendeu.
O grupo quis subir a Uayna Picchu, e eu e a Caroline ficamos deitadas no topo da civilização inca a curtir a vista pelo menos durante 1 hora!
Conhecemos imensa gente nessa hora, de passagem por ali. Uma animação diga-se! Voltamos a Aguas Calientes para almoçar e despedir do Hubert…e bebemos uns “litrinhos” de cerveja …para a meio da tarde arrancarmos num comboio panorâmico, todo em virdo, pelo Vale Sagrado de volta a Ollaytaytambo, onde o nosso motorista aguardava para nos levar a Cusco, mais 1h30 de viagem…
Chegámos a Cusco às 20h00 e fomos jantar com o Augusto.
O último jantar todos juntos. Despedimo-nos dos belgas. No final, eu o Jeff e a Caroline fomos ao Irish pub beber uma jola para descontrair e pensar nos dias incríveis que tínhamos passado.
02/11 – Cusco
Dormi lindamente. Sem horas para levantar.
De manhã tomei o Pequeno-almoço com os restantes e fui dar um passeio pela cidade, devagar, sem pressas, ver as lojinhas e aproveitar o sol. Ao almoço despedi-me dos Aussies e da Caroline e fui almoçar com o Jeff. Depois fomos a uma exposição muito gira inca, sobre cultura regional, e ele foi dormir a sesta enquanto eu continuei na passeata, mas já muito coxa.
Ao final do dia fomos ver um show de danças tradicionais. Um espectáculo. Uma mostra de folclore das varias aldeias com os seus fatos típicos. Muito bom!!
Jantámos na pizzaria “Felicidad” e despedimo-nos pois eu tinha de levantar-me às 05h00 novamente, para ir para Lima!
03/11 – O ultimo dia!! Cusco / Lima / Madrid
Táxi às 06h15.
Cheguei a Lima às 9h00 da manhã e resolvi que já não era uma turista…pelo que não iria de táxi para a cidade, resolvi arriscar o combi publico. Mais uma aventura, já não bastava!
No peru não há paragens de autocarros propriamente ditas…eles param onde se quiser, e desde que alguém no meio da rua faça um sinal. Vão aos berros de janelas abertas a gritar os nomes das ruas para quem quiser subir, rapidamente e quase em movimento, a bordo. Pelo meio põem a musica até ao limite da distorção e cantarolam também. Andam a mil à hora, param de repente e travam em cima dos outros carros (todos a cair de podres diga-se). Tudo grita. Eu ia caindo em cima de uma senhora e acabei por me sentar de costas pois estava a ficar doente com a condução do tipo.
Fui para Miraflores passear, mas confesso que estava tão cansada que ao fim de umas horas e um almoço, acabei por apanhar novamente um combi e regressar à paz do aeroporto.
Encontrei o Jeff por lá, à espera do seu voo para os states…despedimo-nos novamente e comecei a viagem de regresso.
Copio o que escrevi na altura:
“o avião descola dentro de minutos de Lima para Madrid. Amanhã estarei de volta a casa.
Mais uma viagem. Mais um bocadinho de mim que mudou. Mais um povo para guardar no coração. O que vale é que o Mundo é um T0”
Cheguei a Lisboa no dia seguinte, domingo, 04 de Novembro, às 17h00 locais.
Pirua de volta ao seu quintal.
25/10 – O Voo
A expectativa é grande. A promessa de uma viagem única e inesquecível está prestes a começar…
Estou a poucas horas de aterrar em Lima, ao meu lado está a Nicole, uma Sra. francesa que já andou por meio mundo e que com a a idade de ser minha mãe, vai agora aventurar-se sozinha pelo Peru, com um guia e sem trecking, é certo, mas mesmo assim uma Sra. de coragem. :)
Com ela dividi o táxi até ao centro e tive a minha 1ª aventura pelas estradas e condução ultra perigosa dos peruanos…to get use to.
Fiquei hospedada no hotel mais carismárico de Lima, o Grand Bolívar, antigo hotel das estrelas e figuras publias, palco dos discursos políticos e de muito glamour. Está velho e com uma grande necessidade de renovação dos quartos, mas continua grandioso.
26/10 – LIMA
De manhã: Passeei pelo centro de Lima. Plaza de las Armas, Igrejas e catedrais, muitos edifícios coloniais, onde imaginei as antigas damas espanholas e seus capitães a passear no seu tempo… Exposição de Cota Carvalho e exposição do Banco Nacional sobre todas as culturas passadas (Chavín, Vicus, Moche, Nasca, Lambayque/ Chimú, Chancay e Inca), incluindo uma exposição de Hugo Cohen com peças de Ouro Incas.
Depois do render da guarda, nada pontual ou sério como o britânico, apanhei um táxi para Miraflores, a caminho da verdadeira aventura que me esperava…
Conheci o grupo : 2 belgas (o único casal no grupo) de 28 e 30 anos – Alice & Vincent; 1 Irlandesa a viver em Melbourne, de 27 anos – Caroline; Uma Australiana a viver em NYC – 46 anos – Karen e um australiano de 47, o Ken, a viver mesmo em Brisbane, na AU. Os “Aussies” do grupo, como eles mesmo se chamavam!
À parte do casal, ninguém se conhecia e estávamos todos a viajar sozinhos.
O grupo pareceu-me logo genial, como se viria a constatar mais tarde…
O Guia em Lima: Sebastian, um porreiro, gay até à ultima, super fashion, que estava numa de curtir tranquilamente pelas ruas da city.
De tarde: 1ª experiência de Bus…passeamos pelo centro de Lima e voltamos para o atarefado e muito turístico bairro de Miraflores para jantarmos. Muito bom, aliás, como toda a comida no Peru, é magnífica…Ceviche, Tacu-Tacu e muito Pisco Sour depois lá fomos dormir pois a wake-up call era às 03h00 da matina!
27/10 – Cusco – antiga Capital Inca
05h45 lá apanhámos o voo p Cusco, a 3200 metros de altitude, foi o 1º contacto com a altitude sickness…uma sensação estranha e difícil de aguentar.
No avião deram-nos logo um chazinho de Coca para aliviar a tensão e comprei um saquinho de folhas logo à chegada…desde então não parámos de beber, uns 7 ou 8 por dia…mas mascar não adorei pois as folhas ficam coladas na boca. De qualquer forma, a folha de coca não altera nada, é como o chá verde, quanto muito ajuda a ter menos pressão no corpo e na cabeça…
Hostal Inca Dream – excelente, mt limpo, muito caseiro, toda a gente ultra simpática e atenciosa, como todo o povo que conheci, verdade seja dita.(Mas ali senti-me em casa!)
Guia em Cusco e posteriormente no Vale Sagrado: Augusto – excelente guia, mt dedicado à cultura Inca e pouco dado a espanholadas, como é evidente…foi 5*.
Passeámos por S. Blas, que é bairro dos artesãos e artistas, tivemos uma “aula” sobre a Coca, enqto bebíamos mais chá e provávamos uns chocolates e bolachas divinais tb eles de coca…e uma aula sobre a importância dos números para os Incas. Mt giro.
De tarde deixámos o Augusto e organizei uma “excursão” do grupo a Sqsaywaman (ou “sexy-woman” como nós lhe chamávamos, pois lê-se mesmo assim) e a Q’enqo. Ruínas Incas em óptimo estado de conservação e palco de rituais e sacrifícios antigos.
De noite jantámos por pouco mais de 1€ cada um e fomos dormir cedo para partirmos de madrugada para o Valle Sagrado.
28/10 – PISAC/ URUBAMBA / OLLAYTAYTAMBO
Wake-up call: 06h45 da matina, um luxo face aos restantes dias, anteriores e posteriores.
- Bus para Pisac – a estação dos autocarros é exactamente o que esperamos, um espaço de terra batida com enormes filas à espera de correr p dentro do bus para não ir no telhado…
- Combi privado para irmos visitar o Centro de Têxteis de Cusco, na montanha, de terra batida e ao ar livre, onde a comunidade se junta para tecer a lã e dar forma aos inúmeros acessórios de Alpaca e ovelha..
- regresso a Pisac e Almoço no mercado tradicional.
- Bus para Urubamba e combi privado de lá para Ollaytaytambo – cidade Inca mt bem preservada – tivemos a sorte de apanhar a festa da aldeia, uma animação!
Visita às muralhas incas e jantar no Hearts Café. De noite ainda dei um passeio com o Jeff pela aldeia para ver melhor a terrinha.

29/10 – 1º dia de trecking – Huaran / Cancha Cancha / Accopata
Começámos por comprar prendas para as crianças e walking sticks em Ollaytatytambo (quantas vezes pensei depois em como não teria conseguido caminhar os 3 dias sem eles, benditos os meus amiguinhos de endurance! ). De combi privado da Lhama Path lá fomos para Huaran.

Equipa:
1 cozinheiro (aliás, um verdadeiro chef, um às no tacho, uma maravilha…Martín) e 2 ajudantes + 2 meninos para levarem as Lamas e 2 guias – O Hubert – guia principal e excelente pessoa, e o Elvis – o meu guia privado - como eu lhe chamava – o miúdo estava a fazer uma espécie de estágio para a faculdade de Guias e teve de me aturar 3 dias a passo de “tortuga”, lol.
Uma dúzia de Lamas para carregarem os Duffle Bags com as nossas coisas básicas e 2 cavalos para carregarem a comida e acessórios.
Começámos o trecking em Fundo Huaran, a 2950 mts e caminhámos por 4 horas até Cancha Cancha, onde tínhamos uma tenda montada para almoçar junto a um riacho. Logo de início, ao fim de alguns metros, começámos a subir e fiquei logo sem ar, um aperto no peito fortíssimo e um peso no corpo que não aguentava, comecei logo a andar tipo caracol pois não conseguia mesmo caminhar nem inspirar fundo. Sol, calor, frio, chuva, tivemos de tudo.
Depois do almoço senti-me melhor e já respirava o suficiente para acompanhar o grupo. A ultima hora de caminhada (a 8ª do dia…) foi debaixo de chuva intensa, até que alcançámos o acampamento molhados até aos ossos, a 4.175 metros. Sítio lindo, chazinho e lanche à nossa espera… foi um reconforto para o corpo e alma.
Conhecemos os dotes do nosso cozinheiro e logo a dormir pois tínhamos de levantar as 05h00 da matina para começar o 2º dia. (quase não dormi com tanto frio).
30/10 – 2º dia de trecking – Pachacutec / Quisuarani / Willquikasa / Cuncani
Atrasámo-nos um bocadinho com os preparativos e às 07h00 da manhã lá arrancámos montanha acima, em direcção ao ponto mais lato da jornada…Pachacutec a 4.850 metros, o ponto mais alto que alguma vez estive na vida. A subida foi muito dura, muito inclinada e com trilhos muito estreitos, a cair para vazios intermináveis.
Chegar lá a cima é absolutamente deslumbrante. De inicio mal consegui falar, com o cansaço e a falta de ar…mas depois de beber um chá de coca e umas pipocas acabadas de fazer lá mesmo no topo, pude apreciar a vista fabulosa, ao nível dos picos cheios de neve das montanhas à volta. Com uma lagoa lá mesmo em baixo, verdinha.

Arrancámos desta vez em downhil :):):) …como eu estava feliz nesse momento!!! Descer para mim era um sonho, conseguia finalmente respirar e nem o granizo que caiu incomodou.
A vista era espectacular e descemos a pique durante umas 3 horas…até chegarmos quase ao local do almoço, Quisuarani (no máximo meia dúzia de casinhas perdidas na montanha com uma escolinha primária). A 3.850. A chegar lá a abaixo comecei a sentir fadiga total e tive de encostar à boxe uns minutos, passei mal e só melhorei depois de vomitar e de cheirar um líquido qualquer que o Elvis me deu. Fomos 3 a sofrer do mesmo, o Ken e Vincent ainda passaram pior! A sorte é que estava sol e calor por essa altura e dava para descansar nas bermas do rio que por ali passava, formando grandes cataratas em alguns pontos.
O almoço já foi debaixo de chuva intensa e muito cansaço…estávamos à quase 6horas a andar…e ainda nos restavam mais 5h30 pela frente, desta vez, com uma grande e inclinada subida de pedras e muita lama, quase sem trilhos visíveis, apenas precipícios…
Assim foi o início da tarde….foi a parte mais difícil de todas e pensei várias vezes que aquilo era uma inconsciência e que eu devia ser doida varrida de me ter metido numa viagem de grau 4 em 5 de exigência física…
No topo de Willquikasa (4.500 mts) senti-me na border line, no meu limite. Ao mesmo tempo senti a alegria de perceber que o tinha superado! Inexplicável.
Do outro lado aguardávamos uma das mais bonitas partes do percurso, cheio de lagoas verdes e chinchilas a correrem pelo meio…aceleramos o passo pois iria ficar noite daí a 2horas e estávamos a quase 3h do suposto acampamento.
A correr montanhas abaixo por horas, começou novamente a chover e estávamos exaustos.
Magoei seriamente o meu joelho tal era a inclinação da montanha e a rapidez com que íamos por ali abaixo, mas mesmo assim tivemos de fazer cerca de 45 minutos de noite.
Chegámos a Cunkani, uma aldeola ligeiramente maior que a anterior, a 3.800 mts. Uma escola com 2 salinhas e o nosso chef e ajudantes a cozinhar lá dentro…estranho era, as lamas e as tendas não estavam por ali, e foi quando percebemos que o ruído que havíamos ouvido umas horas antes na montanha tinha sido de uma avalanche, ocorrida logo depois de termos passado uma montanha e que impediu as lamas e nossos sacos de passar.
Estava no limite da exaustão. 11h30 de caminhada num dia, com altitudes quase sempre acima dos 4.000 metros…voltei a sentir a quebra de tensão. O Ken não aguentou e deitou-se no chão da escola, imundo, e eu, passado uns instantes lá estava também, congelada de frio de cansaço. Os peruanos aqueceram-me umas garrafas e colocaram-me umas mantas em cima para aquecer o corpo.
Cheiravam mt mal e percebi mais tarde porquê…não tendo as nossas coisas, a única forma de nos manterem quentes era utilizar as mantas que serviam de selas aos cavalos, suados da sua caminhada. Ah pois é… é isso mesmo. E eu nem tive forças para pensar nisso, felizmente.
O Homem é um animal de hábitos e ao fim de uns dias na montanha eu já estava sem quaisquer frescuras!
O Hubert mandou 2 homens a meio da noite e da chuva intensa procurar as Lamas e os meninos que as acompanhavam pois não sabíamos se estavam bem, e fizeram todo o caminho para trás à procura!
Na salinha ao lado puseram todas as mantas disponíveis e juntamo-nos os 7 para dormir no chão da escola. Claro que não dormi mais que um par de horas, mas de manhã já estava a sentir-me melhor.
31/10 – 3º dia de trecking – Lares / Ollaytaytambo / Aguas Calientes
O Martín surpreendeu-nos a todos e, quando nos sentámos para tomar o pequeno-almoço, ele, como que por milagre, tinha feito um bolo para nós!!!!!
Recomeçámos a marcha e desta vez, uma “papaíta” / Peace of cake…ou uma canja se fosse por cá
Finalmente o caminho era suave, com casinhas pelo meio, sem pressas. Encontrámos imensas crianças e a felicidade de ¼ de laranja deixa-nos sem palavras. O povo peruano é muito bom, gentil, naturalmente amável, e na sua pobreza material não deixa de ser rico em espírito.
Ao fim de 3 horas chegámos ao nosso destino: as termas naturais de Lares!
Senti-me como se estivesse no SPA do Ritz… agua quente, banho, piscinas a escaldar e…para nossa surpresa, o Cassiano, um dos homens enviados pelo Hubert na noite passada, tinha caminhado toda a noite e toda a manhã com os nossos 7 sacos às costas e lá estava ele, com a nossa roupa limpa!
Nas piscinas conheci o Tomás, um português do Porto, fotógrafo, que andava à 1 ano pelo Peru e que ficou pasmado de me ver ali pois era a primeira portuguesa que conhecia desde que estava na América do Sul. Claro que o Mundo é um T0 e logo percebemos que tínhamos conhecidos em comum. Ele tinha ido pela Geotur para o Peru e era grande amigo de um colega meu da Foz. Incrível, ou talvez não: ainda não percebi a história das coincidências, se as há ou não…
Em Lares já tínhamos a combi da Lhama Path para nos levar de regresso a Ollaytaytambo, 3h30 de caminho por uma estrada que serpenteava pelas montanhas, estreita e toa feita em contra-mão pelo nosso motorista. Fechei os olhos, se não tinha morrido nas montanhas não seria ali, mas o melhor mesmo era não ver!
Chegámos a Ollaytaytambo e fomos beber um Pisco Sour antes de jantar. Fiquei logo animada!!
Jantamos e conhecemos o Kurk, um Neo-zelandês a dar a volta ao Mundo, que a partir dali ficou connosco.
Depois de jantar apanhamos um Tuc-tuc para a estação pois chovia a potes e apanhamos um comboio para Aguas Calientes, o sopé do Machu Picchu.
A cama quente e macia que nos esperava foi uma bênção e dormi das 23h30 até às 04h00 como um bebé.
01/11 – Machu Picchu
05h00 da manhã já estávamos a tomar o pequeno-almoço.
05h30 na fila do bus que nos levaria, loucamente diga-se, até à esperada civilização perdida dos Incas.
É deslumbrante. Amei. Um sítio que tem mesmo uma magia no ar, um misticismo muito forte, que ate para quem é tão pragmática como eu, surpreendeu.
O grupo quis subir a Uayna Picchu, e eu e a Caroline ficamos deitadas no topo da civilização inca a curtir a vista pelo menos durante 1 hora!
Conhecemos imensa gente nessa hora, de passagem por ali. Uma animação diga-se! Voltamos a Aguas Calientes para almoçar e despedir do Hubert…e bebemos uns “litrinhos” de cerveja …para a meio da tarde arrancarmos num comboio panorâmico, todo em virdo, pelo Vale Sagrado de volta a Ollaytaytambo, onde o nosso motorista aguardava para nos levar a Cusco, mais 1h30 de viagem…
Chegámos a Cusco às 20h00 e fomos jantar com o Augusto.
O último jantar todos juntos. Despedimo-nos dos belgas. No final, eu o Jeff e a Caroline fomos ao Irish pub beber uma jola para descontrair e pensar nos dias incríveis que tínhamos passado.
02/11 – Cusco
Dormi lindamente. Sem horas para levantar.
De manhã tomei o Pequeno-almoço com os restantes e fui dar um passeio pela cidade, devagar, sem pressas, ver as lojinhas e aproveitar o sol. Ao almoço despedi-me dos Aussies e da Caroline e fui almoçar com o Jeff. Depois fomos a uma exposição muito gira inca, sobre cultura regional, e ele foi dormir a sesta enquanto eu continuei na passeata, mas já muito coxa.
Ao final do dia fomos ver um show de danças tradicionais. Um espectáculo. Uma mostra de folclore das varias aldeias com os seus fatos típicos. Muito bom!!
Jantámos na pizzaria “Felicidad” e despedimo-nos pois eu tinha de levantar-me às 05h00 novamente, para ir para Lima!
03/11 – O ultimo dia!! Cusco / Lima / Madrid
Táxi às 06h15.
Cheguei a Lima às 9h00 da manhã e resolvi que já não era uma turista…pelo que não iria de táxi para a cidade, resolvi arriscar o combi publico. Mais uma aventura, já não bastava!
No peru não há paragens de autocarros propriamente ditas…eles param onde se quiser, e desde que alguém no meio da rua faça um sinal. Vão aos berros de janelas abertas a gritar os nomes das ruas para quem quiser subir, rapidamente e quase em movimento, a bordo. Pelo meio põem a musica até ao limite da distorção e cantarolam também. Andam a mil à hora, param de repente e travam em cima dos outros carros (todos a cair de podres diga-se). Tudo grita. Eu ia caindo em cima de uma senhora e acabei por me sentar de costas pois estava a ficar doente com a condução do tipo.
Fui para Miraflores passear, mas confesso que estava tão cansada que ao fim de umas horas e um almoço, acabei por apanhar novamente um combi e regressar à paz do aeroporto.
Encontrei o Jeff por lá, à espera do seu voo para os states…despedimo-nos novamente e comecei a viagem de regresso.
Copio o que escrevi na altura:
“o avião descola dentro de minutos de Lima para Madrid. Amanhã estarei de volta a casa.
Mais uma viagem. Mais um bocadinho de mim que mudou. Mais um povo para guardar no coração. O que vale é que o Mundo é um T0”
Cheguei a Lisboa no dia seguinte, domingo, 04 de Novembro, às 17h00 locais.
Pirua de volta ao seu quintal.