segunda-feira, abril 18, 2016

Angola - o poder de África


Já conhecia algumas ilhas, em S. Tomé e em Cabo Verde, mas a África continental, a poderosa, gigante, avassaladora África, com olhos de adulta, essa continuava e continua a chamar por mim.

A África Sub-Sahariana há anos que me chama....já tinha ido à Africa do Sul em criança e os cheiros, as cores e os animais ficaram na minha memória, como agrafos permanentes. 

Angola surgiu num contexto completamente diferente do meu habitual de viagens....surgiu porque o Pedro está lá a viver e queríamos combinar encontrar-nos em algum destino deste Mundo...e pensei...porque não lá?

e lá fui eu...pela primeira vez apenas por 04 dias, que não dava para mais...
Angola é um bicho curioso, uma historia repleta de sangue português, de memorias e hábitos de ex colónia devastada pela guerra, de sentimentos de amargura misturados com amor. E de sofrimento. É uma mistura de amor-ódio para a maioria dos expatriados que lá (ainda) andam. 

Tinha curiosidade em ver e sentir. Sobretudo porque a minha vida nunca teve qualquer relação com Angola, a minha família não sofreu o drama dos retornados, não temos histórias de tios e avós e pais que por lá ficaram. Todos os relatos que sempre tive de lá eram do meu pai sobre as viagens em que ia a trabalho (o meu pai é reformado da TAP e essa foi durante muitos anos uma da suas rotas frequentes). Sem dor.

E cheguei ao aeroporto de Luanda com uma sensação boa, optima...feliz! porque ia ver o Pedro, porque ia conhecer Africa...porque sabia que a Pachamama é magnífica e eu ia mais uma vez comprová-lo! ...e assim foi.

Claro que como convidada de alguém que vive lá a nossa experiência é sempre diferente. Não ia como backpacker como habitualmente, não tinha de desbravar caminhos, rotas, lugares, alojamento, comida....tudo isso estava providenciado (e muito bem, diga-se). Portanto limitei-me a sentir. A sentir a cidade de Luanda, o barco para a península do Mussulo (que as gentes chamam de ilha, mas na realidade não é), a vista do forte ao por-do-sol, o caminho para sul, as vistas da costa até Cabo Ledo. As cores e os cheiros. As favelas, que por lá se chamam musseques, e curiosamente fora da capital são muito organizadinhas (nada a ver com o que já vi por aí) e em que se vê pobreza mas não miséria.

Ficámos numas cabaninhas de madeira numa praia linda, que mais tarde atravessámos à noite, sob um céu estrelado de quem não tem de dar contas a luzes artificiais e por isso brilha como deve ser….para irmos comer umas lagostas na outra ponta. E não ver ninguém pelo caminho. Apenas o mar e os caranguejos. Até ao momento não consigo entender porque é que alguém não gosta de Angola :)

No dia seguinte e porque o meu bichinho de viajante é maior que o meu poder de controlo, lá arranquei o Pedro para um passeio na aldeia dos pescadores, curiosamente não se via brancos por lá a passear, esses vivem nas suas bolhas e apesar de estarem a 02 minutos a pé da praia dos pescadores, não passam a “fronteira” da “sua” praia segura e controlada. 
Para mim isto é que me custa…terem ali a vida e a essência do país onde vivem e não terem curiosidade. E sinceramente acho que é por esta mentalidade que a integração não existe. É uma falsa integração, um continuar da subjugação do povo mas agora de forma diplomática. O amor-ódio mantém-se, de ambas as partes…e com estas atitudes não acredito que alguma vez mude. Só o amor, sem ódio e sem cobranças, sem sentimentos de superioridade é que pode fazer mudar uma relação tão difícil como esta.
Adorei a aldeia, adorei a felicidade das crianças e jovens que brincavam na praia…que faziam competições no “lago” de SUPs improvisados com 1 madeira de base e um pau para fazer de pagaia…adorei os pescadores que arranjavam as suas redes…e sobretudo, adorei ver que mesmo podendo habitar numas casinhas de pedra que lá estavam de um anterior resort abandonado, preferiam viver nas suas cabanas de palha. Porque assim é a sua forma de vida. Porque é uma opção. Respect.

A praia é mar aberto no oceano e as ondas são grandes e fortes. Além de estar a 28º. É impossível não amar. Ainda cravei um SUP e fui dar uma voltinha. :)

Fomos no dia seguinte para a praia dos surfistas. Grande onda. Em todos os sentidos!!! O ambiente da praia é ótimo, malta que acampa por lá, malta que leva a lancheira e fica por lá a passar o dia…e umas ondas magníficas de perder de vista. Aqui fiquei em sofrimento…porque não tinha prancha e estava a custar-me não poder ir para dentro de água curtir. 

Vieram uns amigos/colegas do Pedro e passámos a manhã neste paraíso.
De volta à cidade faltava-me conhecer a “Ilha”, uma península no seguimento da baía de Luanda que foi anteriormente uma ilha e onde estão os restaurantes e bares da capital.

Já tínhamos passado para tomar café com a minha amiga Isabel na nova zona de Talatona, que é feia e completamente descaracterizada, cheia de bairros de brancos em condomínios fechados e seguros….Opções de vida que tenho dificuldade em entender, mas respeito.

Voltando à “ilha”, jantámos com o Manel num dos muitos bares/restaurantes, numa rua cheia de autocarros a transportar os domingueiros do seu fim de festa para regressarem às rotinas da semana. Após um gelado na única gelataria do centro faço as malas com a certeza que esta Angola que eu conheci é muito diferente daquela que me falam os emigrantes que de lá regressam. Tive sorte, não apanhei trânsitos caóticos nem vi nada de inseguro, mas também sei que parte é dos olhos de um viajante, que procura no povo e na cultura local identificar uma alma. 

Faltou-me alguma liberdade, faltou-me o meu habitual deambular a pé pela cidade, mas que eu sei que é possível de se ter e que ficará para uma próxima. 
Vou voltar agora em final de Maio, para descermos mais um pouco, Benguela, Lobito, quiçá Namibe. Preciso de mais África, muito mais. Alimentei um monstrinho e ele está a crescer em mim :).

Ao Pedro só posso agradecer os dias maravilhosos e as saudades que ficaram. Felizmente um mês mais tarde estávamos já a ir para a Serra Nevada, mas isso….é outra história!!!
S, back to the roots


domingo, janeiro 03, 2016

Brasiuuuuu…backpacking nordeste...e o gang que batia palmas ao pôr-do-sol;)

04.12.2015
Estou sentada no meu lugar 37D destino Natal. As instruções de segurança acabam com um “e pronto apertem os cintos e vamos”
Deixo uma realidade que me magoa muito, tanto. Vou com lágrimas nos olhos à espera que dentro de algumas horas consiga desligar o botão. Preciso de ir para voltar + forte. Encher-me de sol, vida, simplicidade. Sem obrigações por uma semana, nem planos. É tudo o que eu quero.
Apagam as luzes….vamos!


Chego ao hostel às 03h da manhã, exausta. Subo para a minha cama em silêncio absoluto para não acordar ninguém. O som da ventoinha é muito alto mas o calor e o cansaço fazem-me adormecer em segundos, quando acordo já estou só com a Leila no andar de baixo, animada e aceleradíssima, a convidar-me para ir tomar PA com ela.
Fico a olhar para esta suíça giríssima que olha p mim como uma backpacker que lhe acabou de entrar pelo quarto…e sinto-me em casa. O Mundo já está a olhar por mim e ainda mal abri os olhos!

Ao pequeno-almoço conheço os restantes hóspedes do hostel e decidimos ir 04 de nós passear pela praia até à parte antiga da cidade (Leila, eu, Chris e Heleno). Eu não conheço nada, não pesquisei, não vi imagens, quero ir sem planos e o único que exijo é um mergulho imediato no mar quente.
15 km mais tarde, incontáveis mergulhos e conversa em 3 línguas, tenho 3 amigos novos, a alma lavada e estamos a beber água de côco na Miami beach.

Curioso que, como a lei brasileira decidiu que não podia haver favela na primeira linha de mar, mantiveram a favela mas construíram uns prédios gigantes de luxo à frente dela. Não soluciona, esconde…e traduz uma cultura muito própria dos sucessivos governos brasileiros. Infelizmente.

Visitámos a Casa da Cultura e voltámos de bus (mas não sem antes a Leila ter entrado em stress absoluto porque estávamos a atravessar tranquilamente a favela a pé…estes suíços têm dificuldade em agir naturalmente nestas situações e demos por nós os 3 a rir c a situação…mas lá lhe fizemos a vontade e acelerámos o passo).

Já depois de jantarmos umas mandiocas fabulosas no Alma Brasileira e em companhia de mais um zuca e um francês, o Heleno conta-nos que foi bolseiro de um famoso prof. de dança brasileiro…e lá o convenço a dar-me uma aulinha de forró! Foi tão divertido que depois de sairmos do forró ainda fomos para um bar de salsa, mas aí tive de lhe poupar os pés e resignar-me a que estou longe de saber dançar como eles.

Decido que no dia seguinte iria fazer o passeio de buggy pelas Dunas até Genipabu e eles decidem que vêm comigo ;) easy!
Foi um dia lindo, pelas dunas, cajoeiros, lagoas, praias, ski-bunda, aero-bunda e caipirinha…sinto que estou no Brasil há um mês…e ainda vamos no 2º dia J
Estava tão bem que decidi adiar para o dia seguinte o meu Bus para Pipa. Boa decisão: nessa noite comi a melhor moqueca de peixe e camarão da minha vida, regada por um vinho…português! :)
E heis que mais uma vez, o Mundo lá veio trazer-me de bandeja, ainda na mesma noite, o Pierce (US) e o Ulyses (BE), que iam de carro a caminho de Pipa no dia seguinte e planeavam parar em toda a costa até lá…exatamente o que eu mais queria fazer!

Claro que no dia seguinte fui com eles…ah…e mais o Simon (FR), que decidiu à última da hora que não queria passar os anos sozinho e veio connosco passar o dia (mas 3 dias depois ainda o encontrei lá, this is soooo typical).

A caminho de Pipa parámos em várias praias desertas, mergulhos só para nós e muita boa disposição. O Ulysses é um belga com certeza com costela latina - pelo menos na condução - e no meio da loucura perdemo-nos entre fazendas de gado e plantações de mandioca…:P. 5h mais tarde chegámos a Pipa com um sorriso nos lábios e muita fome!

Depois de um almoço tardio separámo-nos por um bocado, pois escolhi outro hostel, mas marcámos logo saída para essa noite. Fui conhecer a Ayelen, uma argentina genial e meio tímida que tinha decidido mudar-se na véspera para Pipa para viver. Uma boa decisão, pensei eu!

E foram as únicas 2h sozinhas da minha viagem.

Os dias passaram-se entre surf na Praia do Madeiro (a minha praia preferida das 3 de Pipa e onde conheci o Pará, o dono da escola de surf, que tinha vivido em Cascais e com quem fiquei logo amiga e aluguei as pranchas), SUP com golfinhos aos saltos à minha volta (no dia em que fui dar uma aulinha de SUP ao Pierce e ele quase que se afogou enquanto eu me deslumbrava com os golfinhos), passeios pelas praias desertas a sul de Pipa (carro atolado na areia), travessias em barca em cenários de manguezais incríveis e uma barra linda (Cunhaú) onde os locais fazem a sua praia (éramos os únicos estrangeiros) e finais de tarde de sonho.

2 destes finais de tarde foram passados em Tibau do Sul, na creperia Marinas. Um lugar único, construído em madeira sobre estacas na barra de Tibau, onde o mar e o rio se cruzam e permitem um por-do-sol fabuloso ao som de música clássica. Chegámos com uma expectativa muito baixa, em cima do momento e fomos surpreendidos por um lugar e um ambiente mágicos, J tanto que combinámos os 05 voltar no dia seguinte… e assim nasceu o grupo Pipa Sun Clappers.

O terceiro final de tarde memorável foi na praia. Depois de um dia top a passear pelo sul de carro e termos deixado a Ayelen e o Giancarlo no hostel, eu o Pierce e o Ulysses fomos para a Praia do Madeiro, que tem a particularidade de ficar descendo uma enorme falésia pelo meio de uma mata espetacular. Escolhemos o cantinho onde víamos toda a baía e o sol se prolongava até mais tarde…e adormecemos com o calorzinho do final do dia.
Quando acordei o Ulysses estava a escrever na areia e fui fazer o mesmo. Obrigada Pachamama. Que momento tão bom.
Tivemos de acordar o Pierce pois já estava de noite e tínhamos de descobrir o sítio onde se subia novamente para a estrada.
Era a nossa última noite todos juntos.

O Giancarlo (BR), que entretanto se juntou ao grupo e se tornou peça indispensável na nossa dinâmica ia embora nessa noite por isso fomos jantar só os 04 e depois fazer a ronda habitual dos barzinhos, onde encontrámos imensa gente conhecida e pedimos muitas caipirinhas sem açúcar! :P

Último dia despedimos dos meninos, que nos levaram à praia e passámos as duas entre Açaí, equilíbrio no elástico, passeios e descanso na praia. Foi muito bom.

Regresso à noite para o aeroporto de Natal, diretamente para o voo, com uma sensação de preenchimento. E é isso mesmo, a Vida é uma questão de PREENCHIMENTO.

O meu objetivo foi cumprido: enchi-me de energia, sol e Mundo. E regresso agora mais forte para a realidade em Portugal. E sempre certa de que o mundo tem um jeito de fazer as coisas funcionarem, é apenas preciso ir e confiar.

Alojamento:
Natal: Hostel Republika, melhor café da manhã relação qualidade-preço possível. Female Dorm: 10€/noite com PA incluído J
Pipa: Pipa Hostel (médio, falta ambiente), Female dorm: 10,5€/noite com café da manhã, piscina (que não se usa porque a praia é incrível)

S, o Mundo continua a abrir os braços assim que saio da minha zona de conforto

Nota: conheci muitas outras pessoas mas que não fizeram depois parte do meu dia-a-dia, mas houve uma conversa que me tocou bastante: a Hila, uma Israelita que estava comigo no quarto em Pipa (fomos sempre apenas 3 no quarto). Ela, como todas as mulheres israelitas fez a tropa, que por lá é obrigatória durante 2 anos. A dela foi na faixa de Gaza, onde me contou como os meninos palestinianos lhe iam pedir comida por estarem esfomeados e como tinham medo da metralhadora dela e ela tinha de despir o colete e as armas para lhes ir levar pão. Nós temos tanta, mas tanta sorte de ter nascido aqui. Longe de saber o que é esta realidade que ela me fala. E é em cada vez que conheço, vejo ou contacto com isto que penso em como há muitos mundos no Mundo e não podemos olhar apenas para o nosso umbigo e pensar que somos donos da verdade.