04.12.2015
Estou
sentada no meu lugar 37D destino Natal. As instruções de segurança acabam com
um “e pronto apertem os cintos e vamos”
Deixo uma
realidade que me magoa muito, tanto. Vou com lágrimas nos olhos à espera que
dentro de algumas horas consiga desligar o botão. Preciso de ir para voltar +
forte. Encher-me de sol, vida, simplicidade. Sem obrigações por uma semana, nem
planos. É tudo o que eu quero.
Apagam as
luzes….vamos!
Chego ao
hostel às 03h da manhã, exausta. Subo para a minha cama em silêncio absoluto
para não acordar ninguém. O som da ventoinha é muito alto mas o calor e o
cansaço fazem-me adormecer em segundos, quando acordo já estou só com a Leila
no andar de baixo, animada e aceleradíssima, a convidar-me para ir tomar PA com
ela.
Fico a
olhar para esta suíça giríssima que olha p mim como uma backpacker que lhe
acabou de entrar pelo quarto…e sinto-me em casa. O Mundo já está a olhar por mim
e ainda mal abri os olhos!
Ao
pequeno-almoço conheço os restantes hóspedes do hostel e decidimos ir 04 de nós
passear pela praia até à parte antiga da cidade (Leila, eu, Chris e Heleno). Eu
não conheço nada, não pesquisei, não vi imagens, quero ir sem planos e o único
que exijo é um mergulho imediato no mar quente.
15 km
mais tarde, incontáveis mergulhos e conversa em 3 línguas, tenho 3 amigos
novos, a alma lavada e estamos a beber água de côco na Miami beach.
Curioso que,
como a lei brasileira decidiu que não podia haver favela na primeira linha de
mar, mantiveram a favela mas construíram uns prédios gigantes de luxo à frente
dela. Não soluciona, esconde…e traduz uma cultura muito própria dos sucessivos
governos brasileiros. Infelizmente.
Visitámos
a Casa da Cultura e voltámos de bus (mas não sem antes a Leila ter entrado em
stress absoluto porque estávamos a atravessar tranquilamente a favela a pé…estes
suíços têm dificuldade em agir naturalmente nestas situações e demos por nós os
3 a rir c a situação…mas lá lhe fizemos a vontade e acelerámos o passo).
Já depois
de jantarmos umas mandiocas fabulosas no Alma Brasileira e em companhia de mais
um zuca e um francês, o Heleno conta-nos que foi bolseiro de um famoso prof. de
dança brasileiro…e lá o convenço a dar-me uma aulinha de forró! Foi tão
divertido que depois de sairmos do forró ainda fomos para um bar de salsa, mas
aí tive de lhe poupar os pés e resignar-me a que estou longe de saber dançar
como eles.
Decido que
no dia seguinte iria fazer o passeio de buggy pelas Dunas até Genipabu e eles
decidem que vêm comigo ;) easy!
Foi um
dia lindo, pelas dunas, cajoeiros, lagoas, praias, ski-bunda, aero-bunda e
caipirinha…sinto que estou no Brasil há um mês…e ainda vamos no 2º dia J
Estava
tão bem que decidi adiar para o dia seguinte o meu Bus para Pipa. Boa decisão:
nessa noite comi a melhor moqueca de peixe e camarão da minha vida, regada por
um vinho…português! :)
E heis
que mais uma vez, o Mundo lá veio trazer-me de bandeja, ainda na mesma noite, o
Pierce (US) e o Ulyses (BE), que iam de carro a caminho de Pipa no dia seguinte
e planeavam parar em toda a costa até lá…exatamente o que eu mais queria fazer!
Claro que
no dia seguinte fui com eles…ah…e mais o Simon (FR), que decidiu à última da
hora que não queria passar os anos sozinho e veio connosco passar o dia (mas 3
dias depois ainda o encontrei lá, this is soooo typical).
A caminho
de Pipa parámos em várias praias desertas, mergulhos só para nós e muita boa
disposição. O Ulysses é um belga com certeza com costela latina - pelo menos na
condução - e no meio da loucura perdemo-nos entre fazendas de gado e plantações
de mandioca…:P. 5h mais tarde chegámos a Pipa com um sorriso nos lábios e muita
fome!
Depois de
um almoço tardio separámo-nos por um bocado, pois escolhi outro hostel, mas
marcámos logo saída para essa noite. Fui conhecer a Ayelen, uma argentina
genial e meio tímida que tinha decidido mudar-se na véspera para Pipa para
viver. Uma boa decisão, pensei eu!
E foram as
únicas 2h sozinhas da minha viagem.
Os dias
passaram-se entre surf na Praia do Madeiro (a minha praia preferida das 3 de
Pipa e onde conheci o Pará, o dono da escola de surf, que tinha vivido em
Cascais e com quem fiquei logo amiga e aluguei as pranchas), SUP com golfinhos
aos saltos à minha volta (no dia em que fui dar uma aulinha de SUP ao Pierce e
ele quase que se afogou enquanto eu me deslumbrava com os golfinhos), passeios
pelas praias desertas a sul de Pipa (carro atolado na areia), travessias em
barca em cenários de manguezais incríveis e uma barra linda (Cunhaú) onde os
locais fazem a sua praia (éramos os únicos estrangeiros) e finais de tarde de
sonho.
2 destes
finais de tarde foram passados em Tibau do Sul, na creperia Marinas. Um lugar
único, construído em madeira sobre estacas na barra de Tibau, onde o mar e o
rio se cruzam e permitem um por-do-sol fabuloso ao som de música clássica.
Chegámos com uma expectativa muito baixa, em cima do momento e fomos surpreendidos
por um lugar e um ambiente mágicos, J tanto
que combinámos os 05 voltar no dia seguinte… e assim nasceu o grupo Pipa Sun
Clappers.
O
terceiro final de tarde memorável foi na praia. Depois de um dia top a passear
pelo sul de carro e termos deixado a Ayelen e o Giancarlo no hostel, eu o
Pierce e o Ulysses fomos para a Praia do Madeiro, que tem a particularidade de
ficar descendo uma enorme falésia pelo meio de uma mata espetacular. Escolhemos
o cantinho onde víamos toda a baía e o sol se prolongava até mais tarde…e
adormecemos com o calorzinho do final do dia.
Quando
acordei o Ulysses estava a escrever na areia e fui fazer o mesmo. Obrigada
Pachamama. Que momento tão bom.
Tivemos
de acordar o Pierce pois já estava de noite e tínhamos de descobrir o sítio
onde se subia novamente para a estrada.
Era a
nossa última noite todos juntos.
O Giancarlo (BR), que entretanto se juntou ao grupo e se tornou peça indispensável na nossa dinâmica ia embora nessa noite por isso fomos jantar só os 04 e depois fazer a ronda habitual dos barzinhos, onde encontrámos imensa gente conhecida e pedimos muitas caipirinhas sem açúcar! :P
Último
dia despedimos dos meninos, que nos levaram à praia e passámos as duas entre
Açaí, equilíbrio no elástico, passeios e descanso na praia. Foi muito bom.
Regresso
à noite para o aeroporto de Natal, diretamente para o voo, com uma sensação de
preenchimento. E é isso mesmo, a Vida é uma questão de PREENCHIMENTO.
O meu
objetivo foi cumprido: enchi-me de energia, sol e Mundo. E regresso agora mais
forte para a realidade em Portugal. E sempre certa de que o mundo tem um jeito
de fazer as coisas funcionarem, é apenas preciso ir e confiar.
Alojamento:
Natal: Hostel Republika, melhor café da
manhã relação qualidade-preço possível. Female Dorm: 10€/noite com PA incluído J
Pipa: Pipa Hostel (médio, falta
ambiente), Female dorm: 10,5€/noite com café da manhã, piscina (que não se usa
porque a praia é incrível)
S, o Mundo continua a abrir os braços assim que saio da minha zona de conforto
Nota: conheci muitas outras pessoas
mas que não fizeram depois parte do meu dia-a-dia, mas houve uma conversa que
me tocou bastante: a Hila, uma Israelita que estava comigo no quarto em Pipa
(fomos sempre apenas 3 no quarto). Ela, como todas as mulheres israelitas fez a
tropa, que por lá é obrigatória durante 2 anos. A dela foi na faixa de Gaza,
onde me contou como os meninos palestinianos lhe iam pedir comida por estarem
esfomeados e como tinham medo da metralhadora dela e ela tinha de despir o
colete e as armas para lhes ir levar pão. Nós temos tanta, mas tanta sorte de ter
nascido aqui. Longe de saber o que é esta realidade que ela me fala. E é em
cada vez que conheço, vejo ou contacto com isto que penso em como há muitos
mundos no Mundo e não podemos olhar apenas para o nosso umbigo e pensar que somos
donos da verdade.