domingo, janeiro 03, 2016

Brasiuuuuu…backpacking nordeste...e o gang que batia palmas ao pôr-do-sol;)

04.12.2015
Estou sentada no meu lugar 37D destino Natal. As instruções de segurança acabam com um “e pronto apertem os cintos e vamos”
Deixo uma realidade que me magoa muito, tanto. Vou com lágrimas nos olhos à espera que dentro de algumas horas consiga desligar o botão. Preciso de ir para voltar + forte. Encher-me de sol, vida, simplicidade. Sem obrigações por uma semana, nem planos. É tudo o que eu quero.
Apagam as luzes….vamos!


Chego ao hostel às 03h da manhã, exausta. Subo para a minha cama em silêncio absoluto para não acordar ninguém. O som da ventoinha é muito alto mas o calor e o cansaço fazem-me adormecer em segundos, quando acordo já estou só com a Leila no andar de baixo, animada e aceleradíssima, a convidar-me para ir tomar PA com ela.
Fico a olhar para esta suíça giríssima que olha p mim como uma backpacker que lhe acabou de entrar pelo quarto…e sinto-me em casa. O Mundo já está a olhar por mim e ainda mal abri os olhos!

Ao pequeno-almoço conheço os restantes hóspedes do hostel e decidimos ir 04 de nós passear pela praia até à parte antiga da cidade (Leila, eu, Chris e Heleno). Eu não conheço nada, não pesquisei, não vi imagens, quero ir sem planos e o único que exijo é um mergulho imediato no mar quente.
15 km mais tarde, incontáveis mergulhos e conversa em 3 línguas, tenho 3 amigos novos, a alma lavada e estamos a beber água de côco na Miami beach.

Curioso que, como a lei brasileira decidiu que não podia haver favela na primeira linha de mar, mantiveram a favela mas construíram uns prédios gigantes de luxo à frente dela. Não soluciona, esconde…e traduz uma cultura muito própria dos sucessivos governos brasileiros. Infelizmente.

Visitámos a Casa da Cultura e voltámos de bus (mas não sem antes a Leila ter entrado em stress absoluto porque estávamos a atravessar tranquilamente a favela a pé…estes suíços têm dificuldade em agir naturalmente nestas situações e demos por nós os 3 a rir c a situação…mas lá lhe fizemos a vontade e acelerámos o passo).

Já depois de jantarmos umas mandiocas fabulosas no Alma Brasileira e em companhia de mais um zuca e um francês, o Heleno conta-nos que foi bolseiro de um famoso prof. de dança brasileiro…e lá o convenço a dar-me uma aulinha de forró! Foi tão divertido que depois de sairmos do forró ainda fomos para um bar de salsa, mas aí tive de lhe poupar os pés e resignar-me a que estou longe de saber dançar como eles.

Decido que no dia seguinte iria fazer o passeio de buggy pelas Dunas até Genipabu e eles decidem que vêm comigo ;) easy!
Foi um dia lindo, pelas dunas, cajoeiros, lagoas, praias, ski-bunda, aero-bunda e caipirinha…sinto que estou no Brasil há um mês…e ainda vamos no 2º dia J
Estava tão bem que decidi adiar para o dia seguinte o meu Bus para Pipa. Boa decisão: nessa noite comi a melhor moqueca de peixe e camarão da minha vida, regada por um vinho…português! :)
E heis que mais uma vez, o Mundo lá veio trazer-me de bandeja, ainda na mesma noite, o Pierce (US) e o Ulyses (BE), que iam de carro a caminho de Pipa no dia seguinte e planeavam parar em toda a costa até lá…exatamente o que eu mais queria fazer!

Claro que no dia seguinte fui com eles…ah…e mais o Simon (FR), que decidiu à última da hora que não queria passar os anos sozinho e veio connosco passar o dia (mas 3 dias depois ainda o encontrei lá, this is soooo typical).

A caminho de Pipa parámos em várias praias desertas, mergulhos só para nós e muita boa disposição. O Ulysses é um belga com certeza com costela latina - pelo menos na condução - e no meio da loucura perdemo-nos entre fazendas de gado e plantações de mandioca…:P. 5h mais tarde chegámos a Pipa com um sorriso nos lábios e muita fome!

Depois de um almoço tardio separámo-nos por um bocado, pois escolhi outro hostel, mas marcámos logo saída para essa noite. Fui conhecer a Ayelen, uma argentina genial e meio tímida que tinha decidido mudar-se na véspera para Pipa para viver. Uma boa decisão, pensei eu!

E foram as únicas 2h sozinhas da minha viagem.

Os dias passaram-se entre surf na Praia do Madeiro (a minha praia preferida das 3 de Pipa e onde conheci o Pará, o dono da escola de surf, que tinha vivido em Cascais e com quem fiquei logo amiga e aluguei as pranchas), SUP com golfinhos aos saltos à minha volta (no dia em que fui dar uma aulinha de SUP ao Pierce e ele quase que se afogou enquanto eu me deslumbrava com os golfinhos), passeios pelas praias desertas a sul de Pipa (carro atolado na areia), travessias em barca em cenários de manguezais incríveis e uma barra linda (Cunhaú) onde os locais fazem a sua praia (éramos os únicos estrangeiros) e finais de tarde de sonho.

2 destes finais de tarde foram passados em Tibau do Sul, na creperia Marinas. Um lugar único, construído em madeira sobre estacas na barra de Tibau, onde o mar e o rio se cruzam e permitem um por-do-sol fabuloso ao som de música clássica. Chegámos com uma expectativa muito baixa, em cima do momento e fomos surpreendidos por um lugar e um ambiente mágicos, J tanto que combinámos os 05 voltar no dia seguinte… e assim nasceu o grupo Pipa Sun Clappers.

O terceiro final de tarde memorável foi na praia. Depois de um dia top a passear pelo sul de carro e termos deixado a Ayelen e o Giancarlo no hostel, eu o Pierce e o Ulysses fomos para a Praia do Madeiro, que tem a particularidade de ficar descendo uma enorme falésia pelo meio de uma mata espetacular. Escolhemos o cantinho onde víamos toda a baía e o sol se prolongava até mais tarde…e adormecemos com o calorzinho do final do dia.
Quando acordei o Ulysses estava a escrever na areia e fui fazer o mesmo. Obrigada Pachamama. Que momento tão bom.
Tivemos de acordar o Pierce pois já estava de noite e tínhamos de descobrir o sítio onde se subia novamente para a estrada.
Era a nossa última noite todos juntos.

O Giancarlo (BR), que entretanto se juntou ao grupo e se tornou peça indispensável na nossa dinâmica ia embora nessa noite por isso fomos jantar só os 04 e depois fazer a ronda habitual dos barzinhos, onde encontrámos imensa gente conhecida e pedimos muitas caipirinhas sem açúcar! :P

Último dia despedimos dos meninos, que nos levaram à praia e passámos as duas entre Açaí, equilíbrio no elástico, passeios e descanso na praia. Foi muito bom.

Regresso à noite para o aeroporto de Natal, diretamente para o voo, com uma sensação de preenchimento. E é isso mesmo, a Vida é uma questão de PREENCHIMENTO.

O meu objetivo foi cumprido: enchi-me de energia, sol e Mundo. E regresso agora mais forte para a realidade em Portugal. E sempre certa de que o mundo tem um jeito de fazer as coisas funcionarem, é apenas preciso ir e confiar.

Alojamento:
Natal: Hostel Republika, melhor café da manhã relação qualidade-preço possível. Female Dorm: 10€/noite com PA incluído J
Pipa: Pipa Hostel (médio, falta ambiente), Female dorm: 10,5€/noite com café da manhã, piscina (que não se usa porque a praia é incrível)

S, o Mundo continua a abrir os braços assim que saio da minha zona de conforto

Nota: conheci muitas outras pessoas mas que não fizeram depois parte do meu dia-a-dia, mas houve uma conversa que me tocou bastante: a Hila, uma Israelita que estava comigo no quarto em Pipa (fomos sempre apenas 3 no quarto). Ela, como todas as mulheres israelitas fez a tropa, que por lá é obrigatória durante 2 anos. A dela foi na faixa de Gaza, onde me contou como os meninos palestinianos lhe iam pedir comida por estarem esfomeados e como tinham medo da metralhadora dela e ela tinha de despir o colete e as armas para lhes ir levar pão. Nós temos tanta, mas tanta sorte de ter nascido aqui. Longe de saber o que é esta realidade que ela me fala. E é em cada vez que conheço, vejo ou contacto com isto que penso em como há muitos mundos no Mundo e não podemos olhar apenas para o nosso umbigo e pensar que somos donos da verdade.