quarta-feira, agosto 03, 2011

Síria – uma visita marcante e um regresso a 4 dias do “Dia da Ira”

Em Fev. 2011 fui à Síria. O Médio Oriente ainda é uma zona bastante desconhecida para mim e a oportunidade de aprofundar um pouco o conhecimento sobre as regiões-berço da civilização deixaram-me em êxtase e cheia de vontade de ir.

Começámos por Damasco, cidade estranha, suja, pobre, sem qualquer sentido de organização urbana nem conservação do património histórico. O Museu Nacional é interessantíssimo mas desorganizado, com milhares de estátuas por classificar e ordenar… as ruas da zona antiga são o ponto alto e sem dúvida a melhor parte de Damascus, tipicamente árabes, estreitas, com comércio, restaurantes e bares giros (onde se vê apenas homens sírios ou turistas).

Ainda na zona antiga, a mesquita principal (Omeya) é sem dúvida belíssima…aliás, à parte da Mesquita Azul, em Istambul, esta é a mais bonita que visitei até hoje.

A montanha que envolve a cidade, de terra cinzenta, está pejada de favela, numa extensão imensa, misturada com muito betão por acabar de construir e uma névoa permanente. É um cenário estranho imaginar que a poucos kms dali se encontra o monte Goulão, onde de um lado temos esta miséria Síria e do outro uma paisagem verdejante e bem aproveitada em cultivo pelo eterno inimigo, Israel.

Desde logo entendemos a pobreza deste povo. Desde logo se sente a diferença de ser mulher em terras muçulmanas. O povo foi extremamente correcto e amigável, nunca nos fazendo sentir em momento algum que nos consideravam inferiores. Dos vários países muçulmanos que já visitei, este foi sem dúvida o que tem mais mulheres tapadas até aos olhos, de preto de ponta-a-ponta…eu diria que são mesmo raras as excepções… que se por um lado intimidam, por outro reflectem a profunda influência do Islão.

Rumámos 210 kms norte em direcção ao deserto e à famosa cidade de Palmyra, outrora limite do império romano, destruída pelo mesmo num acto de pura demonstração do seu poder e das consequências que sofriam quem não o respeitasse e obedecesse…Palmyra é uma imagem do que foi…e foi estrondosa.

Para mim foi o lugar mais incrível da Síria, ali mesmo a poucos kms do Iraque (100km), no meio do deserto, rodeada de nada, apenas um palmeiral que lhe justificou o nome. Imponente, majestosa. O pôr-do-sol sobre as ruínas é um momento emocionante, daqueles em que ficamos longos minutos sem pensar em nada…pura contemplação.

Seguiu-se Crac des Chevaliers (castelo-fortaleza da época dos cruzados), já bem mais perto da costa, mudança radical de paisagem, de organização urbana, de povo. Uma imponente construção, palco da eterna luta cristãos-muçulmanos, muito bem conservada.

Passámos então pela terra onde estão as noras mais antigas do mundo…Hama…e veêm-se miúdos pendurados naquelas relíquias a brincar, sem qualquer cuidado de conservação, de consciência de preservação desta património que é de todos. Mas as noras são enormes e impressionantes.

Já a chegar a Aleppo, considerada por muitos como a cidade mais antiga do mundo, existente há 10.000 anos, assistimos a uma mudança radical na paisagem e no desenvolvimento desta zona do país: finalmente há culturas agrícolas, exploração pecuária, lojas, alguma organização urbanística…Aleppo é uma cidade moderna para o país, a mais desenvolvida em que estive e a que mais próximo das nossas realidades está. É uma cidade fortificada, mas o seu maior interesse interior, para mim, é a sua cidadela, impressionantemente bem conservada e lindíssima.

Fizemos ainda uma visita nos seus arredores, ao enorme mosteiro de S. Simeon, um santo cristão turco que resolveu viver 39 anos no cimo de um pilar (há malucos para tudo de facto…) e escolheu um monte na Síria para erguer o seu mosteiro, com uma vista panorâmica a 360º, foi casa de muitos retiros.

A Síria foi um destino inesperado. O seu povo, que desde então sofre um genocídio por parte do seu rei-líder imposto, deseja apenas um destino melhor. E tal como todos nós, merece-o. Por enquanto vivem subjugados numa mentira política mas acredito que, pela vontade e bondade que vi neles, o futuro só poderá ser melhor. O Mundo é que não se pode esquecer deste país, parente-pobre sem petróleo mas com pessoas, humanas, iguais a todas as outras, que só querem viver em dignidade.

أفضل أيام

(Até melhores dias)
S

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